Segunda-feira, 24 de Março de 2008

A vida dos outros

É uma realidade que se tornou tão comum que já mal reparamos. Tão indiferente como fazer chuva ou sol - ou até mais ainda, pois o tempo ainda consegue interferir no nosso dia-a-dia. Refiro-me ao flagelo social que são os sem-abrigo, que aumentam exponencialmente (e não só nos grandes centros urbanos), e é algo a que já estamos tão habituados que muitas vezes nos limitamos a olhar para outro lado (onde a paisagem seja mais agradável) e esperar que o pedinte passe. Até nos cruzarmos com o seguinte.
Este fim-de-semana cruzei-me com três mulheres ciganas - uma delas grávida - no espaço de 200 m e no intervalo de meia hora, enquanto tomava o pequeno-almoço numa esplanada, nos arredores de Vilamoura, no Algarve. Passadas as mini-férias da Páscoa, ia no metro para o trabalho quando passaram por mim dois invisuais, uma velha e um miúdo com um cachorro ao ombro e um acordeão entre mãos, só entre o Marquês de Pombal e o Chiado. Aqui, chocou-me em particular a reacção de troça de um grupo de jovens na casa dos 25 anos - novos demais para conhecerem o lado negro da vida, demasiado velhos para gozarem tão cruelmente com quem nada tem.
As boas notícias: uma ONG promoveu, no domingo de Páscoa, uma festa para estas pessoas no Largo da Sé, em Lisboa, em conjunto com três restaurantes da cidade. Na peça apresentada no Telejornal havia de tudo: desde pessoas que dormiam na rua, até idosos que moravam sozinhos e sem sentiam (ainda) mais sós nesta data. Existiam também famílias numerosas cujo orçamento não permitia "luxos" como o bacalhau com natas que foi servido, ou as amêndoas distribuídas no final da refeição. A boa acção vai ser para repetir no próximo dia de Santo António, a 13 de Junho, e - se existissem mais voluntários como estes - o mundo seria um lugar bem mais agradável de morar.

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