quarta-feira, 26 de março de 2008

As lições do Tonecas

Foi dos livros mais (re)lidos da minha infância. Para quem não saiba a que me refiro, falo duma compilação de contos sobre as travessuras do "menino Tonecas", ao estilo d'Os desastres de Sofia, mas em versão masculina e/ou escolar. O Tonecas é, então, um aluno despistado, gozão, por vezes insubordinado até, que está constantemente a provocar o austero professor, cuja função é pô-lo "na linha".
Vem isto a propósito, está claro, do famoso episódio do telemóvel na escola Carolina Michaelis, no Porto, que correu o País à velocidade de um relâmpago, cortesia dessa ferramenta meteórica que é o U-tube.
E nem se diga que a violência nas escolas é uma coisa "de agora", pois há dez anos atrás, andava eu no liceu, já o G.(vou suprimir o resto do nome, que ouvi dizer que o diabo não veste Prada, mas endireitou) se punha em bicos de pés, e - do alto do seu ego - peitava a pobre e aterrorizada professora (de metro e meio) de Introdução às Técnicas Informática (ITI), intimidando-a para o deixar sair sem lhe marcar falta. A senhora, que nem 30 anos devia ter e era uma professora rotativa, daquelas que mudam de escola todos os anos (em que não ficam desempregadas), tremia que nem varas verdes sempre que o G. se aproximava, perante a passividade da turma, que ainda se ria por cima. Provavelmente, só não filmámos porque na altura os telemóveis não se tinham ainda democratizado.
Episódios de violência nas escolas há vários. À semelhança do caso Casa Pia, em que atrás da efeméride surgiram inúmeras denúncias de abuso de menores, não é de admirar que agora uma sublevação de professores saia da sombra e se assuma como vítima dos alunos.
Utilidade tinha, se a Senhora Ministra se dignasse a olhar para o estado calamitoso da Educação em Portugal, assumisse as suas graves falhas, e se empenhasse em colmatá-las. Podia, por exemplo, começar por devolver aos professores a dignidade e o respeito que o seu estatuto merece. Porque, por muito atrevido que fosse o Tonecas, o professor levava sempre a melhor, e essa era a moral da história.

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